De
Pablo Neruda, em Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, Isto é
simples: “Muda é a força (me dizem as árvores) e a profundidade (me
dizem as raízes) e a pureza (me diz a farinha de trigo). Nenhuma árvore
me disse: ‘Sou mais alta que todos.’ Nenhuma raiz me disse: ‘eu venho de
mais fundo.’ E nunca o pão disse: “ Não há nada como o pão.”
domingo, 9 de outubro de 2016
Outubro rosa/Novembro azul
Tratamos mal
nossas crianças e mulheres. A sociedade, mesmo com toda evolução tecnológica,
ainda assim, não cuida. As agressões são diárias, e a todo instante, no Brasil
e mundo afora, mais ainda na África e na Ásia. Por isso, considero significante
a escolha da paquistanesa (Malala) e do indiano (Satyarthi) para o Prêmio Nobel
da Paz de anos atrás. Ela ousou ao denunciar o sistema e pedir escola para
todas as meninas do seu país; ele dedicou mais da metade dos seus 60 anos na luta
pela libertação de crianças de trabalho escravo. Em Cachoeiro e em cada município
brasileiro a preocupação deve ser diária, pois as agressões físicas e
psicológicas às nossas mulheres são enormes e a ignorância masculina para com
elas e para com seu próprio corpo é crescente. Medidas simples como exercício
diário, alimentação balanceada e não fumar são negligenciadas. Esperamos sempre
pelo novo remédio. Pelo milagre da cirurgia... No Brasil, na América e nos
países europeus, há vários anos o outubro veste-se de rosa. Uma cor
significativa em beleza. O Câncer de Mama é destacado - sua prevenção e
tratamento precoce em busca da cura. Porém, desejamos muito mais que a procura
do nódulo. As mulheres necessitam da liberdade, da perda de preconceitos, da conquista
da autoestima, da prevenção de outras doenças, a defesa contra violências... A
mulher, neste mês, e em todos os meses, deve se olhar, tocar e sentir o próprio
corpo, valorizar não só a estética, a beleza externa e aparente, mas também a
harmonia do corpo e alma. No novembro azul, a cor forte da prevenção e
detecção, também precoce, do Câncer de Próstata. Uma glândula pequena, própria
do homem, onde armazenamos espermatozóides e partilhamos vidas.
Mas, se
valorizamos o rosa do outubro e o azul do novembro, não podemos esquecer o
restante dos dias do ano. Algo próprio do brasileiro: emoção. Somos emotivos;
esquecemos da solidariedade. Ficamos na superficialidade das coisas. O que nos
falta para despertar enquanto Cidade, Estado, País e mundo civilizado? Acho que
devemos fugir da superficialidade. Aprofundarmo-nos nas causas, nos envolvermos
nos problemas sociais e públicos. Pintamos o corpo de rosa, vestimos azul,
colocamos faixas em sacadas de prédios públicos e privados, iluminamos o Cristo
Redentor e... tapamos os olhos para o restante das mazelas para com as mulheres.
Valorizamos exames radiológicos de última geração para detecção de nódulos em
mamas e esquecemos rapidamente as mulheres mortas em clinicas de abortos
clandestinos; esquecemos que mulheres são espancadas em suas residências. Necessitamos,
sim, do outubro rosa e do novembro azul: homens e mulheres sem diferenças, se
prevenindo de doenças. Não podemos esquecer que nos meses seguintes as mulheres
morrerão por causas que não queremos ver, pensar ou discutir. Precisamos
conversar sobre os outros meses do ano não tão coloridos.
Sergio
Damião Santana Moraes
domingo, 2 de outubro de 2016
Um pouco de poesia...
Do
poeta moçambicano, Mia Couto, em poemas escolhidos, Saudade: “Magoa-me a
saudade/ do sobressalto dos corpos/ ferindo-se de ternura/ dói-me a
distante lembrança/ do teu vestido/ caindo aos nossos pés...”
Saudade
Saudade dói. A
dor não é física. Não tem ponto de localização no corpo. Ela se apodera do pensamento,
da mente, das lembranças... Invade a visão do presente e parece que se
perpetuará no futuro. A angústia é imensa. O medo também. Medo de sofrer. A
saudade dói. Chega devagar e de repente se agiganta e ocupa todos os momentos
da vida. Mesmo dos instantes do cotidiano. Buscamos o tempo. O tempo é o
remédio. Um paliativo. Não existe cura para a saudade. Deixamos o tempo agir.
Ele abranda a dor. Alivia a angústia. Cicatriza feridas. Ele age lentamente.
Não é um tempo instantâneo. Para algumas saudades, o tempo parece tomar a forma
infinita. O tempo, apesar de cicatrizar feridas, ele deixa a memória, e da
memória as lembranças, e o lembrar traz a dor. Incomoda o viver. Viver passa a
ser dependente do esquecimento. Esquecer, apagar uma memória, não depende da
razão, depende dos nossos sentidos, e este, não dominamos totalmente. Depende
do desejo, e o desejo é mais forte que o querer racional. Tenho saudades. Às
vezes me pego triste, melancólico. São saudades... São muitas as fontes da
saudade. Ela é parente do amor. Só sentimos saudades daquilo que amamos, do que
desejamos. A saudade vem dos sentidos. Sentimos saudades do cheiro, do tocar,
do ouvir, da voz, do gosto, do perfume... Das coisas que nos alegram e nos faz
viver. A defesa para não sentir saudades, para não sofrer, é não amar; não
desejar. Mas como não amar? Seria um não viver. Portanto, viver é sofrer. Viver
é ter saudades. E ter saudades é sofrer. Somos fadados a sofrer. Os que amam,
sofrem. Sofrem os pais, os filhos, os enamorados... A saudade aparece em um
ponto de ônibus, em uma estação de trem, em uma rodoviária, em um aeroporto, em
uma avenida, em uma rua, estacionamento... Ela se manifesta no olhar, na mão
levantada do adeus, nas lágrimas da face ou na voz arrastada. Sofrem os que
ficam no fim de uma cerimônia de sepultamento; no fim de um relacionamento; na
viagem de um parente próximo. A saudade não esclarece a razão. Ela apenas se
manifesta. O tempo e a não lembrança são os remédios.
Na primeira
vez que presenciei uma dor fantasma, não entendi. Não entendia como uma dor
podia se manifestar em um membro que não mais existia. Hoje, entendo. É a saudade.
É a mesma saudade daquilo que não possuímos mais. Na dor fantasma, eu não entendia
como ele podia se queixar, dias após a amputação, de dor mais forte do que
quando o membro gangrenado estava unido ao restante do corpo. O cérebro, na dor
fantasma, lembrava da parte do corpo retirada. Sentia saudade de parte do
corpo. A dor não pertencia à razão, não era consciente, era sentida pelas
lembranças de seus neurônios. O cérebro sentia saudade daquilo que um dia lhe
pertencera. Assim nos apresentamos nas perdas. A saudade dói, incomoda como se
parte de nós não mais existisse. É preciso reconstruir a parte perdida. Existem
pedaços em nossa volta que podemos juntar e assim abrandar a saudade.
Sergio Damião Santana Moraes
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