sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Um pouco de poesia ...

Do poeta, contista e romancista moçambicano, Mia Couto, Idades: “No início,/ eu queria um instante./ A flor./ Depois,/ nem a eternidade me bastava./ E desejava a vertigem/ do incêndio partilhado./ O fruto./ Agora,/ quero apenas/ o que havia antes de haver vida./ A semente.”

A flor do deserto desabrochou!


A planta que presenteei Fabiola, minha esposa, em maio, dia das mães, chama-se “Flor do Deserto”. Na verdade, quando a encontrei, ainda não era uma flor. Quando a vi, em Vila Velha, sob a ponte que liga a cidade Canela Verde com Vitória, em floricultura bem junto às águas salobras da nossa baía, a jardineira me contou, e eu relatei em crônica de meses atrás, que daquela planta que me encantara nasceria belas flores. Com o encantamento, confiei em sua floração, e a jardineira confirmou: “Sob o sol de Cachoeiro de Itapemirim, aparecerá uma linda flor. ” Porém, por dias, e depois meses, a decepção foi grande. Dia após dia, de manhã bem cedo, antes do alvorecer, buscava a planta e nada diferente encontrava: nenhum sinal da floração. Mas, agosto chegou, ainda com a timidez do sol e com os fatos ruins da nossa história – história do Brasil. Contudo, para minha surpresa, ela escolheu esse mês para desabrochar. Acho que foi um presente dos céus. Uma influência do meu pai. O mês do seu aniversário.
Quem sabe a beleza do texto da cachoeirense Kelly Wandermuren Thompson, advogada, e estudante de psicologia da São Camilo, possa explicar a razão do desabrochar: “Hoje, e não ontem, nem o amanhã. Apenas hoje, em presença infinita. Um lapso de 24 horas. Hoje, em que se vive o agora, sem pressões ou projeções. Instante, marca indelével do momento sentido. Momento escultor de imagens que amanhã já esquecerei. Hoje que não quer renovação, não quer mudança, apesar de saber que elas virão, ainda assim, fulgura nas certezas da esperança. Hoje, somente hoje, desejosa calmaria me invade. Traz a sensação da transcendência que ultrapassa o gotejar do tempo. Quando nesse hoje, o tempo já não importa, a ponto de ser esquecido ou desprezado, ele se eterniza em encontro marcado nas lacunas das palavras não ditas. Basta o silêncio que se adianta com a paz. Um amanhã sereno e livre de preocupações. ”
Pela manhã eram três brotos. Durante o dia: sol forte. À noite um dos brotos desabrochou e uma linda flor se apresentou. Diante da flor e dos dois brotos vermelhos da flor do deserto: eu permaneci, em silêncio. Naquele instante, deixei o pensar e as palavras para outro dia. Preferi o prazer do momento. O prazer da imagem. O desabrochar da flor, a leitura do texto, o vermelho em minha retina, me fez esquecer as preocupações do futuro.

Sergio Damião Santana Moraes

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Um pouco de poesia...

De Álvares de Azevedo, em Lira dos Vinte Anos, Lembrança de Morrer:

“Quando em meu peito rebentar-se a fibra,/ Que o espírito enlaça à dor vivente,/ Não derramem por mim nem uma lágrima/ Em pálpebra demente./ E nem desfolhem na matéria impura/ A flor do vale que adormece ao vento:/ Não quero que uma nota de alegria/ Se cale por meu triste pensamento. [...] Só levo uma saudade – é dessas sombras/ Que eu sentia velar nas noites minhas.../ E de ti, ó minha mãe! pobre coitada/ Que por minhas tristezas te definhas! [...] Descansem o meu leito solitário/ Na floresta dos homens esquecida,/ À sombra de uma cruz, e escrevam nela:/ - Foi poeta, sonhou e amou na vida....”

Boatos

“Está correndo um boato de que você morreu. Confirma?” Respondi: estou bem vivo. Um abraço. “Graças a Deus. Cambada de gente para inventar coisas. Quando me falaram levei um susto tão grande que meu coração disparou.” O diálogo aconteceu através de mensagem do WhatsApp, no domingo à noite. O boato iniciara-se na terça-feira. Quando recebi a mensagem fiquei em dúvida sobre o “confirma”. Desejava confirmar minha morte ou o boato? Bem... Achei melhor afirmar que estava vivo, portanto, a morte era um boato. Agradeci pela preocupação que demonstrava. De terça a domingo, nos cinco ou seis dias da semana, foram intensos em notícias. Mais ainda, por serem em comunicação instantâneas, aleatórias – mensagens online não confirmadas.  Apesar do tamanho da nossa cidade, onde as informações podem ser mais bem verificadas, ainda assim, os desencontros das notícias foram enormes. Na terça, pela manhã, me encontrava no consultório, as pessoas ligavam e a secretária me informava: “Doutor, ligaram e pediram seu nome completo, queriam fazer uma oração pelo senhor.” E o que você disse, perguntava. “Disse que o senhor estava vivo e estava atendendo normalmente. Ela aproveitou e marcou uma consulta para amanhã à tarde”.
Nos grupos de WhatsApp perguntavam por mim e eu respondia, quando afirmava a presença em vida, logo comentavam: “Se não foi o Damião, deve ter sido o outro colega médico. ” O boato é bem diferente do “boca a boca” de tempos atrás. No “boca a boca” se checava a informação e logo o desmentido. No boato atual, embora rápido, é uma mensagem gravada, e pode ser lida dias depois, e persistir na tela do celular ou do computador por um tempo bem maior que na memória dos que recebiam a informação do “boca a boca”. Em tempos atuais, não precisamos da presença física do comunicador, o mundo é virtual. A dúvida, no caso do boato, é bem maior e angustiante. Tanto que, no dia seguinte, na quarta-feira, em grupo de WhatsApp, a mensagem de confirmação da morte de um dos médicos Sergio, permanecia. Com as mensagens atuais, morrer ou viver, não afetam as emoções. É apenas isso, uma mensagem na tela. De tudo, veio a esperança. Recebi uma palavra, com a pessoa me falando, bem próximo aos meus ouvidos: “O boato da morte é a esperança de muitos anos de vida.” Fiquei com a impressão que, no Brasil, e em Cachoeiro, o velho ditado popular que aprendi – “o povo aumenta, mas não inventa”, com a rede social atual, se transformou em “o povo passou a inventar”. Nas minhas leituras e crônicas posso inventar – criar um mundo de fantasia, inofensivo, algo bem diferente do mundo virtual da rede social.


Sergio Damião Sant’Anna Moraes