sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Um pouco de poesia...

De Carlos Drummond de Andrade, em A Rosa do Povo: “Em verdade temos medo./ Nascemos escuros./ As existências são poucas: Carteiro, ditador, soldado./ Nosso destino, incompleto./ E fomos educados para o medo./ Cheiramos flores de medo./ Vestimos panos de medo./ De medo, vermelhos rios vadeamos./ Somos apenas uns homens/ e a natureza traiu-nos./ Há as árvores, as fábricas, doenças galopantes, fomes./ Refugiamo-nos no amor,/ este célebre sentimento,/ e o amor faltou: chovia, ventava, fazia frio em São Paulo...”

Nosso Itapemirim

Meses atrás escrevi: mesmo com toda tristeza, pelo mar de lama – rejeito de minério de ferro da barragem Samarco, em Mariana (Minas Gerais), que assola o Rio Doce, ainda assim experimentei momentos de alegria ao caminhar junto ao Itapemirim, no centro de Cachoeiro e, por toda Avenida Beira-rio. Foi em fim de semana, logo após as chuvas, em domingo pela manhã. A euforia permanecia por toda caminhada, observava nuvens em nosso céu, um prenúncio de dias melhores para o rio, agricultura e animais. Parece estranho que tão pouco aos olhos de muitos me faça tão feliz. É... A alegria daquele fim de semana não se confirmou. Vivemos com as alternâncias do tempo e o sofrimento do rio. Eu vejo: “Na paisagem do rio / difícil é saber onde começa o rio; / onde a lama começa do rio; / onde a terra começa da lama; / onde começa o homem naquele homem. [...] Um cão, porque vive, é agudo. / O que vive não entorpece. / O que vive fere. / O homem, porque vive, choca com o que vive. / Viver é ir entre o que vive...” Eu vi o rio Itapemirim, e o Doce, como o poeta João Cabral de Melo Neto viu os rios pelo mundo afora. Acho que o medo do poeta ao enxergar a lama dos rios é o que sinto ao ver o Itapemirim. O Rio Doce, bem antes do mar de lama da Samarco, já se encontrava em situação catastrófica. Já apresentava sinais de abandono em suas nascentes, desmatamento em seu entorno e um mar de esgoto em seu leito. A decretação de sua morte, ou perda de vidas nas profundidades de suas águas nos próximos anos, era anunciada e prevista pelos ambientalistas. A empresa Samarco deu o tiro derradeiro.
Por isso, a lama descrita nos versos do João me amedronta. Mais ainda quando lembro as imagens do rio do norte capixaba. Por alguns dias abandonei a caminhada em torno do nosso rio Itapemirim. Fui forçado. A dor em membro inferior esquerdo não me deixa caminhar. O rio passei a observar do alto das pontes. Não vejo as garças e as pedras se sobressaem na paisagem. Vejo mato, areia... Uma tristeza sem fim. Uma dor maior que a minha dor física. No tempo em que caminhava ao lado do rio: eu via o barco, o homem e sua rede. Hoje: o pequeno volume d’água, o grande número de pedras, a diminuição da minha visão. Quem sabe? O reflexo do sol nas grandes pedras à mostra no leito do rio. Ou? As palavras do poeta João. Não sei. Só sei que vejo um homem desaparecendo no areal do nosso rio. Pensando melhor, bem sei, não consigo enxergar com nitidez devido ao medo. Medo de acontecer o desaparecimento do nosso rio, assim como despareceu o Rio Doce. O rio do norte capixaba – o rio que o meu pai me apresentou na infância (meu primeiro rio). Antes de ele desaparecer totalmente, apresentava sinais que se assemelham ao Itapemirim. O meu medo é que desapareça o rio que escolhi para viver o resto dos meus dias.




Sergio Damião Sant’Anna Moraes

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Um pouco de poesia

De João Cabral de Melo Neto, O rio – O cão sem plumas: “Na paisagem do rio/ difícil é saber onde começa o rio;/ onde a lama começa do rio;/ onde a terra começa da lama;/ onde o homem, onde a pele começa da lama;/ onde começa o homem naquele homem. [...] Um cão, porque vive, é agudo./ O que vive não entorpece./ O que vive fere./ O homem, porque vive, choca com o que vive./ Viver é ir entre o que vive...”

Suicídio

O comportamento suicida aumenta em nossa sociedade. Uma tendência mundial. Inerente à modernidade: estilo de vida, consumo de drogas lícitas (álcool e tabaco) ou ilícitas (cocaína, crack...). Também, em nossas ruas e estradas, com a alta velocidade de carros e motocicletas, na imprudência da inobservância das leis do trânsito. Fruto de uma sociedade permissiva, falta de ações preventivas e ou educacionais. A todo  momento, risco de perda de uma vida. Mortes evitáveis, mortes traumáticas, ceifando vidas, deixando sequelas. Algo comum entre os nossos jovens. Além das causas externas, proveniente de estilos de vida e comportamento, o risco do suicídio aparece em doenças endógenas - ainda que sofram influências do meio em que vivemos. As depressões endógenas (manifestação de tristeza profunda, transtorno alimentar, distúrbio do sono, uma aparente falta de interesse pelas coisas da vida), algo bem além de uma tristeza momentânea por uma perda de algo ou pessoa querida. A depressão é crescente em nosso convívio. Motivo de alerta para a sociedade. Algo possível em todas as idades. Devemos observar as pessoas. Identificar sofrimentos e nos aproximarmos do outro. Na maioria das vezes são momentos. Tristeza passageira, coisas dos nossos sentimentos. Quando atentam contra a própria vida, ou a vida de alguém, sempre emitem sinais, dias ou horas antes. Bem antes de encontrarem-se sem esperança, sem apoio, em completa solidão, mesmo em meio à multidão. Os melancólicos profundos permanecem alheios às coisas da vida. Uma deficiência neuro-hormonal, passível de tratamento medicamentoso. No momento da depressão profunda, vão contra um dos maiores estímulos humanos - instinto da sobrevivência. A doença não é física, pois, convivendo com pacientes com doenças crônicas, com dores físicas, ainda assim, permanece a esperança de melhoras, permanece o desejo da cura. No transtorno mental, psicológico, uma dor diferente se apresenta: um físico perfeito e mente confusa em sentimentos. É o momento em que pedem ajuda. A necessidade da ajuda é iminente; o risco também. São alguns segundos... As ações para a prevenção do suicídio são fundamentais. Por ser um momento, dias após a tentativa do suicídio, o desejo é de manter a vida, evoluir, crescer...
Precisamos evitar estigmas: a grande barreira para a prevenção do suicídio. Com isso ficaremos atentos aos depressivos, alcoolistas, usuários de drogas ilícitas, doenças crônicas degenerativas. Alerta para aqueles que manifestam desejo do suicídio - mesmo que aparentemente não sejam convincentes. Alertas aos parentes próximos, colegas de trabalho, de escola...


Sergio Damião Sant’Anna Moraes